Crescimento pessoal

06/07/2021 09h00

Onde está a minha fé?

As palmas das mãos se unem com os dedos apontados para o alto num gesto de devoção, saudação, agradecimento, oração e fé. Mas para quem rezar?

Por Nosso Bem Estar

AdobeStock/NBE
Flor

Onde está a minha fé?

A posição de prece – mãos unidas - presente em muitas religiões é mais do que uma expressão de espiritualidade. Ela tem o poder de equilibrar a energia vital entre o lado direito e o lado esquerdo do nosso corpo. Promove foco e consciência interior. Estimula o respeito por si mesmo e pelos outros. Nos conecta com nosso refúgio de fé. Abre a porta interior para pedir e agradecer.

Essa postura conhecida como o gesto do Namastê (saudação indiana que expressa “o Deus que habita em mim saúda o Deus que habita em você”) foi adotada por algumas pessoas como forma de cumprimento desde que a pandemia começou. Um jeito inteligente e simpático de deixar clara a mensagem de que, em tempos de pandemia, devemos nos cumprimentar com respeito e reverência, mas com o devido distanciamento.

Na Índia, o mesmo gesto é chamado de Anjali Mudrá e utilizado para invocar o estado de comunhão divina. Mudrás são gestos de mãos, rosto ou do corpo que evocam atitudes psicológicas e espirituais, cada um com a sua qualidade específica ou assinatura. Entre as qualidades específicas do Anjali Mudrá está “auxiliar no bom funcionamento do sistema imunológico”. Mais um ponto positivo para quem adotou essa saudação.

 

GANHOS E PERDAS

Os tempos de pandemia despertaram nos homens e mulheres de boa vontade uma prática louvável de cuidado uns com os outros.

O cenário de perdas e ameaças inspirou o cultivo da fé como forma de manter a esperança, mas também como guarida contra sofrimentos.

A palavra fé costuma estar relacionada à aceitação de dogmas. A chamada “fé cega”, que exclui qualquer questionamento racional, costuma se manifestar no âmbito religioso, mas também no campo político e social. Esse tipo de fé, via de regra, acaba gerando mais aspectos negativos do que positivos para seus praticantes. 

Numa abordagem mais psicológica do ser humano e seus conteúdos inconscientes, a fé tem um sentido mais amplo e complexo. Relaciona-se com a intuição e com uma sensação inconsciente, que não é lógica e nem facilmente explicável, mas que está presente gerando firmeza e confiança. Mantendo-nos no caminho com o olhar ao mesmo tempo aberto e focado.

 

PROVA DE FÉ

Não há como explicar a existência de Deus cientificamente, nem pelos cânones da divindade. Além disso, cada um é livre para escolher sobre a existência ou inexistência de uma divindade.

É compreensível que uma parte da população opte por tornar-se agnóstica ou até mesmo ateia. O agnóstico considera que, através da razão humana, é impossível justificar tanto existência quanto a inexistência de uma divindade. Já para o ateu, não existe nenhum um tipo de deus.

O fato é que os impactos da pandemia levaram muitas pessoas a dobrar os joelhos e a rezar, ainda que o gesto represente apenas um exercício de humildade e resignação.

A fé pertence ao universo individual e ao sagrado de cada um.  Na oração, o mais importante é a motivação, de preferência movida por amor e compaixão.

Fé na vida, fé no que virá. E que a fé remova montanhas.

E você, onde está a sua fé? 

Em tempo - Escrever sobre fé não é fácil, ainda mais quando se tenta exercitar o respeito a todas as formas de crença. Foi preciso captar vários olhares e aqui compartilhamos alguns. Agradecemos a todos que ajudaram a compor essa matéria e a todos que a leram. Namastê.

 

REFLEXÕES e PRÁTICAS

“Como oramos?

Oramos com nossa boca e nossos pensamentos, mas isto não basta.

Temos de orar com nosso corpo também, com nossa linguagem, com nossa mente e com nossa vida cotidiana.

Com a mente alerta, nosso corpo, linguagem e consciência podem tornar-se unos.

No estado de unidade de corpo, linguagem e consciência, podemos produzir a energia da fé e do amor, necessária para mudar uma situação difícil.”

Do livro A energia da Oração – Thich Nhât Hanh

“Viver a espiritualidade é aprender a detectar as gotas de magia que se escondem no quotidiano. ... A magia é essa viagem ao outro lado do mundo, para um país cuja língua desconhecemos. E é descobrir que, ainda assim, a compreendemos com o coração.”

Do livro A Magia do Silêncio - Monja Kankyo Tannier

 

ANJALI MUDRÁ

- Junte as mãos na frente do coração, com os dedos juntos e apontando para cima.

-Deixe um pequeno espaço no centro das palmas das mãos.

- Pode-se encostar as mãos no osso esterno (no meio do peito), ou deixá-las ligeiramente afastadas do corpo.

- Relaxe os ombros para trás e para baixo, com os cotovelos ligeiramente afastados e com a coluna vertebral naturalmente alinhada.

 

REZAR E AGRADECER

Silvia Bavaresco*

Antes da pandemia tive uma visão em que eu estava sentada fazendo orações.  Também tive um sonho de que algo grave iria acontecer e que eu teria que fazer alguma coisa. Criei uma corrente de orações. Eu já vinha fazendo um trabalho online. Com a pandemia só se fortaleceu e me fez conectar com gente do mundo inteiro.

Adaptei o Tabuleiro de Chanock para atendimentos online. Passei a fazer as indicações de óleos essenciais e de florais – tudo online. Mando a receita ou os produtos prontos se a pessoa preferir. Faço também muitas manipulações alquímicas. É uma das coisas que eu mais amo fazer e que eu mais agradeço por ter recebido esse dom.

Tenho atendido muitas pessoas com falta de fé. Pessoas que antes oravam, faziam práticas de meditação e não conseguem mais fazer. Outras que dizem não acreditar em nada, mas vem procurar a mim, uma pessoa que não é psicóloga, nem psiquiatra, mas que vai falar para ela de oração, de fé e de coisas boas.

Não pode faltar oração – muita, todo dia. Rezar unido. A oração é a nossa maior arma para combater a pandemia da negatividade. E precisamos agradecer. Agradecer também é uma forma de oração.

Não tem nada maior e melhor pra gente se proteger do que a oração. A gente reza pra quem a gente acredita, mas tem que rezar.

*Silvia Bavaresco é Terapeuta Floral, Aromaterapeuta, Taróloga e Apometrista.

 

VAMOS FALAR SOBRE A FÉ

Arnildo Hasper*

Dos muitos pensadores que formaram o meu pensar, Freud foi o maior, com o livro O Futuro de uma Ilusão, e outros. Bem como a sociologia, filosofia, antropologia.

A fé é um fenômeno da condição humana, que surgiu junto com a revolução cognitiva, de quando o humano deu um salto no uso da linguagem e começou criar instrumentos para melhorar suas condições de transformar a natureza e, com isso, permanecer mais tempo em determinado local.

É quando surge a figura, que na antropologia foi nominada de “Pai da Horda Primitiva”. Este pai tinha a atribuição de determinar a lei da relação entre todos do grupo. Na medida em que as conquistas da Cultura foram tomando vulto, no lugar do “pai” foi criado um totem. Quando algo de extraordinário acontecia, era atribuído ao Totem, que passava a ser "adorado".  O fenômeno de “crer”, valorizar o totem, gerava união, formando assim uma irmandade e estreitando laços sociais cuja ligação fosse pela mesma divindade.

A fé é um fenômeno social presente em todas as formas de cultura, com ligeiras diferenças. A fé é o cimento das religiões e, por extensão, de todas as formas de laços sociais com os outros. O objeto da fé vai além da necessidade de ser um totem humano, Deus, santo, árvore, astro, animal, etc. Se eu acredito em ti, eu tenho fé em ti, não preciso provas ou intermediários aprovados por outros.

A fé é recurso para enfrentar os sofrimentos, bem como a ciência e a magia. Na pandemia, a fé é necessária para formar o apoio mútuo da irmandade. Para lançar os pedidos para os mesmos deuses e esperar apoiados um no ombro do outro, na certeza de que os deuses atendam de acordo com cada coração. 

“Cada indivíduo lança as suas questões, preces, para as suas “estrelas”, mas a resposta que virá será sempre a que já está no seu coração” (poesia alemã).

Não tem como acreditar em algo pelo qual não se é contaminado pela cultura. Deus sempre tem a forma mais próxima possível do meu “pai”. O meu “pai” é o elemento ditado pela cultura para formar internamente o Deus de cada um. Por isso reza-se em nome do pai, ...

Pessoalmente não tenho uma fé religiosa, mas se for preciso para aliviar os sofrimentos de um irmão, sou o primeiro da fila para ficar de joelhos. Se ajudar que eu reze, rezarei pela fé do meu irmão, em respeito ao que ele crê.

*Arnildo Hasper é Psicanalista, Filósofo e Teólogo, entre outras formações.

 

Créditos:

Vera Mari Damian

Jcomp/Freepik/NBE

Arquivo pessoal

 

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