Saúde Integral

06/05/2021 08h00

A viagem da memória

O acervo de nossas memórias faz com que cada um de nós seja o que é: um indivíduo para o qual não existe outro idêntico. Mas, o que fazer quando a memória começa a “viajar”?

Por Nosso Bem Estar

GeraT/Pixabay/NBE
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A viagem da memória

O autor do livro “Em busca do Tempo Perdido”, Marcel Proust, já dizia: “A verdadeira viagem se faz na memória.” E quem duvida?

Tudo o que somos, todo o conhecimento em relação a nós mesmos e ao mundo que nos cerca é elaborado a partir da vivência de experiências externas e internas que, depois, são armazenadas na memória.

Ou seja: nossa identidade e nossa história perpassam o aprendizado adquirido e lembrado. Isso é crucial, afinal, como poderíamos sobreviver sem a memória? É ela que nos torna capazes de identificar os perigos, de nos comunicarmos, de gerar conhecimento através das experiências.  

Iván Izquierdo, um dos mais renomados neurocientistas do Brasil e do mundo (falecido em fevereiro deste ano, em Porto Alegre) destacou em seu livro “Memória” (2018):

“Somos aquilo que recordamos, literalmente. Não podemos fazer aquilo que não sabemos, nem comunicar nada que desconheçamos, isto é, nada que não esteja na nossa memória... O acervo de nossas memórias faz com que cada um de nós seja o que é: um indivíduo, um ser para o qual não existe outro idêntico”.

O pesquisador argentino naturalizado brasileiro tornou-se uma das principais referências nos estudos sobre memória e foi mentor do Instituto do Cérebro, criado junto à Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). 

O QUE SABEMOS ATÉ AGORA?

A memória é considerada uma das habilidades mais relevantes do cérebro e uma das funções cognitivas mais complexas do nosso organismo. "Memória significa aquisição, formação, conservação e evocação de informações”, define Iván Izquierdo.

Segundo o neurocientista, “a aquisição é também chamada de aprendizado ou aprendizagem: só se ‘grava’ aquilo que foi aprendido. A evocação é também chamada de recordação, lembrança, recuperação. Só lembramos aquilo que gravamos, aquilo que foi aprendido”.

Para o pesquisador “também somos o que resolvemos esquecer”.  O nosso cérebro “lembra” quais são as memórias que não quer trazer à tona e evita recordá-las: as humilhações, as situações profundamente desagradáveis ou inconvenientes. “De fato, o cérebro não as esquece, pelo contrário: as lembra muito bem e muito seletivamente, mas as torna de difícil acesso”, explica.

Izquierdo afirma que o passado, nossas memórias e nossos esquecimentos voluntários nos dizem quem somos e nos permitem projetar o futuro. Isto é, nos dizem quem poderemos ser. “O passado contém o acervo de dados, o único que possuímos, o tesouro que nos permite traçar linhas a partir dele, atravessando, rumo ao futuro, o efêmero presente em que vivemos”.

FATORES QUE COMPROMETEM

O desempenho de nossa memória está relacionado a questões de ordem comportamental e fisiológica.

Alguns fatores em particular podem gerar prejuízos ao desempenho das habilidades cognitivas e da memória. Segundo a pesquisadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento da Faculdade de Medicina da USP, doutora Thais Bento Lima e Silva, entre as causas está a falta de estímulos cognitivos.

- Costumamos destacar que, apesar do cérebro não ser um músculo, se ele não for estimulado, vai atrofiando. Se for exercitado, se desenvolve, explica a pesquisadora que também é professora na disciplina de Gerontologia da Universidade de São Paulo (USP) e membro da diretoria da Associação Brasileira de Alzheimer - Regional.

Outro fator é a qualidade do sono.

- A insônia é uma grande vilã para piorar o desempenho do funcionamento das habilidades mentais, principalmente da memória e da atenção, pois é durante o sono que formamos as aprendizagens adquiridas durante o dia.

Os estudos da Neurociência também destacam a importância de se evitar o uso/ abuso de alimentos industrializados, ricos em açúcares e gorduras saturadas.

- Em excesso, esses alimentos podem acumular no cérebro proteínas não utilizadas (radicais livres), possibilitando o aparecimento de toxinas que, a longo prazo, podem gerar prejuízos no funcionamento das habilidades mentais, constituindo um fator de risco para o desenvolvimento de demências.

A doutora Thais aponta ainda a desorganização ambiental e mesmo a falta de uma rotina obrigatória pré-estabelecida como fatores que colaboram para que nosso cérebro fique mais preguiçoso e tenha um pior desempenho do processamento das nossas habilidades mentais.

“Estabelecer um ritmo de tarefas obrigatórias e que envolvam hábitos de vida saudáveis é fundamentais para uma boa qualidade do processo de memorização e do resgate da informação memorizada”, recomenda.

A especialista destaca ainda a importância da estimulação cognitiva, popularmente conhecida como exercícios de ginástica para o cérebro, como estratégia para criar uma “reserva cognitiva” para prevenir e reparar danos à saúde cerebral em casos de pacientes com Covid-19. “Criar reserva cognitiva é fazer com que as conexões entre os neurônios sejam cada vez mais sólidas, aproveitando assim o potencial de funcionamento do sistema nervoso, para gerar ao longo da vida uma reserva de proteção a possíveis danos que possam acometer o cérebro”, explica.

GINÁSTICA PARA O CÉREBRO

A neurociência aprofundou o conhecimento a respeito do declínio do desempenho cognitivo de nosso cérebro ao longo do tempo, tais como lapsos de memória, raciocínio lento, dificuldades de concentração, etc. Uma das descobertas é que esse órgão incrível compensa perdas através da incorporação de novas experiências e conhecimentos.

Ou seja: aprender coisas novas, vivenciar experiências positivas e “alimentar” nossa mente com informações de qualidade podem sim ajudar a reparar esse declínio do cérebro. Assim surgiu a estimulação cognitiva - ou exercícios de ginástica para o cérebro.

Mas afinal, o que significa exercitar o cérebro?

A primeira rede de escolas de ginástica para o cérebro da América Latina – a SUPERA - surgiu em São José dos Campos (SP) e atualmente conta com 350 unidades espalhadas pelo país.

Criou uma metodologia exclusiva baseada nos avanços da neurociência e dirigida para todas as idades, oferecendo cursos que envolvem práticas voltadas para a melhora da atenção, raciocínio, criatividade e memória.  

Segundo o diretor executivo Luiz Carlos Moraes, a SUPERA vem se posicionado em âmbito nacional como “empresa promotora de saúde mental, buscando desenvolver o potencial do cérebro e impulsionar uma forma incrível de viver”.

A metodologia utilizada está baseada no conceito de neuroplasticidade do cérebro.

- A plasticidade neuronal é a capacidade que o sistema nervoso tem de se adaptar, de se reorganizar e se modificar de acordo com a demanda. Isto é, de acordo com as interações e estímulos com o meio ambiente interno e externo, ou ainda como resultante de lesões que afetam o sistema nervoso. A neuroplasticidade não é uma habilidade específica, é uma característica, uma condição do sistema nervoso”, explica o diretor da SUPERA.

Segundo Moraes, os estudos científicos das neurociências reforçam a importância de otimizarmos o desempenho das habilidades mentais, por meio de exercícios de estimulação cognitiva - popularmente conhecidos como exercícios de ginástica para o cérebro. Entre eles estão o uso do ábaco, as neuróbicas, os jogos que treinam a atenção/concentração e os exercícios que exercitam a memória recente.

INTERAÇÃO SOCIAL

A importância da qualidade das relações interpessoais para o bem-estar e saúde do cérebro é outra questão sempre destacada no trabalho da SUPERA.

Para isso, considera os estudos da neurociência que apontam as relações com diversidades, redes de apoio e suporte social entre os indivíduos como potencializadoras de nossa força e resiliência nos momentos de adversidades. Principalmente, em eventos chamados estressores, que exigem estratégias de enfrentamento dos nossos aspectos emocionais.

Ao interagirmos com o outro, nos motivamos a ter projetos de vida, a investirmos no autocuidado e a adquirirmos o senso de pertencimento, com reflexos positivos para a saúde do cérebro e para uma melhor qualidade de vida.

CÉREBRO ATIVO

A psicopedagoga e especialista em Psicogerontologia, Luciana Soldatelli Miotto, coordena o programa Atividade Cérebro Ativo, da UCS Sênior, na Universidade de Caxias do Sul, voltado para a estimulação cognitiva.

- A memória auxilia a construção de cada ser humano, conforme suas individualidades, vivências e lembranças. Através das memórias damos significado à nossa história, seja ela pessoal ou em grupo, formando assim nossa identidade.

Segundo a psicopedagoga e especialista, a prevenção é de extrema importância. “Precisamos investir na nossa saúde para assim podermos pensar num envelhecimento saudável e numa qualidade de vida satisfatória”, destaca Luciana Miotto, que indica algumas atitudes simples que podem ser adotadas para estimular a memória.

PARA PRESERVAR A MEMÓRIA

A ciência tem destacado que a adoção de hábitos de vida saudáveis são estratégias fundamentais para a manutenção da saúde do cérebro, assim como para um processo de envelhecimento saudável. Dentre eles:

  • Alimentação balanceada.
  • Boa qualidade do sono.
  • Realização de exercícios intelectuais que estimulem as habilidades cognitiva.
  • Prática regular de atividades físicas orientadas por um profissional especialista.
  • Cuidados com o estado de humor (buscar a tranquilidade); Relaxamento.
  • Prevenção ou manejo adequado de doenças crônicas presentes.
  • Busca de um rotina dinâmica e produtiva, evitando vícios e ociosidade.
  • Interação social (comunicar-se com as pessoas e desafiar-se constantemente).

Fonte: Pesquisadora em Neurologia Cognitiva e do Comportamento, Thais Bento Lima e Silva / SUPERA

PARA ESTIMULAR A MEMÓRIA

  • Preste atenção no que faz - atenção e memória caminham juntas.
  • Como ser único descubra e/ou redescubra atividades que lhe dê prazer.
  • Desafie-se em busca de nova atividades.
  • Cuide para que sua vida não se torne uma rotina, faça as coisas de modos diferentes.
  • Pratique atividades físicas, palavras cruzadas, leia, cante, escute músicas e se deixe envolver pela melodia; dance mesmo que sozinho(a).
  • Aprecie e se encante com a simplicidade e beleza que a natureza nos proporciona.
  • Neste período de isolamento, faça o trajeto dentro da sua casa de diversas formas.
  • Quando precisar lembrar de algo ou tiver medo de esquecer, fale alto, se escute e repita várias vezes.
  • Lembre e relembre bons momentos, viagens.
  • Se gostar, faça atividades manuais: pinte, borde, tricô, chochê ou outros artesanatos.

Fonte: Especialista em Psicogerontologia, Luciana Soldatelli Miotto / UCS.

 

Créditos: Divulgação

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