Planeta

09/04/2021 08h00

Filho, silêncio!

O que estamos vivendo pode ser a obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante. Não porque não goste dele, mas por querer lhe ensinar alguma coisa.

Por Nosso Bem Estar

Tom Fisk/Pexels/Divulgação/NBE
Krenak

Filho, silêncio!

“A nossa mãe, a Terra, nos dá de graça o oxigênio, nos põe para dormir, nos desperta de manhã com o sol, deixa os pássaros cantarem, as correntezas e as brisas se moverem, cria esse mundo maravilhoso para compartilhar, e o que a gente faz com ele?

O que estamos vivendo pode ser a obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante.

Não porque não goste dele, mas por querer lhe ensinar alguma coisa.

- Filho, silêncio!

A Terra está falando isso para a humanidade.

E ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. Ela simplesmente está pedindo: “Silêncio”. Esse é também o significado do recolhimento.

Quem dera eu pudesse fazer uma mágica para nos tirar desse confinamento, que pudesse fazer todos sentirem a chuva cair.

É hora de contar histórias às nossas crianças, de explicar a elas que não devem ter medo.

Não sou um pregador do apocalipse. O que eu tento é compartilhar a mensagem de um outro mundo possível.

Para combater esse vírus, temos de ter primeiro cuidado e depois coragem.”

...

O mundo está agora numa suspensão e não sei se vamos sair dessa experiência da mesma maneira que entramos.

É como um anzol nos puxando para a consciência.

Um tranco para olharmos para o que realmente importa.”  *

NBE - Que lições podemos aprender com a essa realidade da pandemia?

AILTON KRENAK – Se considerarmos que estamos dentro de uma experiência imprevisível e que tudo ainda é desconhecido, talvez a gente devesse ter um pouco mais de paciência antes de tentar tirar conclusão da experiência como se fosse uma lição.

Vamos imaginar que essa situação nos colocou todos como ouvintes e que a mensagem ainda não chegou por completo, mas a gente já está querendo saber o que entendeu dela. Podemos ter entendido meia mensagem e ela nos mostrou que a gente está no caminho errado. Que agora vamos ter que buscar outro caminho.

Mesmo assim vamos estar antecipando a compreensão de um evento no qual ainda estamos dentro. É como querer acordar de um pesadelo, sentar na cama e falar ‘deixa eu ver o que eu aprendi com isso’. Você não aprendeu nada. Coletivamente não aprendemos nada. A gente só levou um susto.

NBE - Você acredita que vamos aprender com as perdas e com o sofrimento?

AILTON KRENAK - Algumas pessoas acham que o dano, o desastre, é educativo. Seria uma espécie de pedagogia do sofrimento.  Eu não sou adepto disso. Acredito que tem muitas maneiras de aprender com o mundo e com a vida que não seja com sofrimento.   

A vida é um dom, é maravilhosa. Não estamos pagando uma pena. A cada manhã que acordamos vivos deveríamos festejar, celebrar porque estamos vivos. Mas a gente quer estar vivo e estar consumindo alguma coisa, algum mundo, algum desejo.  A vida deveria ser o suficiente para a gente estar sóbrio e falar ‘nossa que bom, estou vivo’.

NBE – Você considera mais fácil para os indígenas aldeados atravessar esse momento?

AILTON KRENAK – Nossa aldeia é no médio Rio Doce, onde a mineração da Vale derramou a lama de Mariana sobre o rio que a gente chama de Uatu. Acreditamos que o rio ainda está vivo, mas ele está em coma, porque não tem peixe, a gente não pode beber a água dele, não pode entrar na água. Somos abastecidos aqui por caminhão pipa para as atividades e por água mineral para beber. Essa aldeia já estava vivendo uma situação de trauma antes da pandemia. A pandemia acrescentou uma situação de isolamento. Vai completar um ano que eu estou aqui sem sair pra lado nenhum. Mas estou acompanhando o que vem acontecendo nas outras aldeias da Amazônia, do Mato Grosso, do Nordeste. Temos uma rede que nos mantém sempre em contato com os outros parentes de todas as outras aldeias. Porque nós nos consideramos todos parentes.

Os parentes de outros territórios sofrem esse mesmo impacto, agravado por outros danos. Os Yanomamis estão sofrendo com a invasão de 25 mil garimpeiros no território deles. Para cada yanomami tem um garimpeiro dentro do território ameaçando a vida deles.  Caçando ouro.

E hoje temos um governo que incentiva esse tipo de violência e esse tipo de agressão. Os povos indígenas no Brasil estão vivendo um momento de provação dura. Inclusive o grande chefe Raoni e outras lideranças indígenas, acabaram de protocolar uma denúncia no tribunal internacional contra o governo brasileiro, por genocídio.

NBE – A cosmologia indígena tinha alguma visão ou profecia dessa realidade?

AILTON KRENAK – Os Guaranis têm um cântico contando que ouvem a voz de Nhanderuvussu, o criador do mundo, dizendo aos seus filhos: “Corram e não parem. Toquem o seu maracá (chocalho) e façam suas orações, porque a terra atrás de vocês está desmoronando, afundando.” Essa imagem é muito forte na narrativa do povo Guarani sobre a criação da vida na Terra.

Os Tikunas, lá do Amazonas, no Rio Solimões, contam que os criadores do mundo são irmãos gêmeos. O irmão gêmeo que saiu por último era muito intempestivo e fazia coisas imprevisíveis. Ele subiu numa palmeira muito alta e lá de cima tudo o que pronunciava acontecia, porque a palavra tinha o poder de criar o mundo. O irmão mais velho vê que ele vai fazer um anúncio, pede para não fazê-lo, mas ele já havia pronunciado: “Daqui de cima dessa palmeira eu vejo o outro lado do oceano; lá vêm os brancos e eles vão acabar com a gente”. Isso parece demais com uma profecia.  E não demorou muito para acontecer.

NBE – O que você considera importante o ser humano ter sempre em mente?

AK – Talvez o mais importante seja lembrar uma frase que é muito difundida, há muito tempo, de que “não se come dinheiro”. Dizem que quando os holandeses estavam no Maranhão, um sacerdote holandês foi conversar com um ancião Tupinambá, que perguntou: “Por que vocês tiram as nossas florestas (pau-brasil) para encher seus navios e levar para a Europa?” E o sacerdote respondeu: “Fazemos isso para manter nossa riqueza e sustentar nossos filhos, as futuras gerações”. E o ancião questionou: “Vocês não acreditam que a mãe Terra é capaz de dar comida para os seus filhos?” 

O ancião achava tão escandaloso alguém juntar riqueza para deixar ao filho que imaginou que eles deviam comer dinheiro. E que esse filho dele não era capaz de pegar na natureza o que precisava pra comer. Pegar um peixe, uma fruta.

Essa ideia consumista que impregnou todo mundo tem a ver com a ilusão de que a riqueza, o dinheiro, é alguma coisa que se come. Que vai garantir a vida amanhã.

É assim que interpretamos essa fúria de querer acumular coisas o tempo inteiro, numa ideia de que se você acumular riqueza vai estar seguro. Essa é uma ilusão.

A mãe Terra mostra o contrário. A cada manhã ela é próspera e provê tudo o que a gente precisa. Só uma pessoa muito estúpida pode achar que tem que acumular muita riqueza para estar vivo amanhã. É como se a gente pudesse comprar o dia de amanhã. O amanhã não está à venda. Viva o dia de hoje. Com tudo de bom que você pode ter ao seu redor, hoje. Não fique com essa ideia de comprar o dia de amanhã, porque sobre o dia de amanhã você não tem certeza nenhuma.

Talvez a gente esteja vivendo, nesse momento de crise, uma novidade que é a valorização de um modo de vida que era considerado extinto, perdido. E que essa valorização possa nos melhorar a todos. Não só com a humanidade aprendendo com o povo indígena, mas o próprio povo indígena se reconhecendo como parte dessa humanidade que precisa melhorar.

*Trecho do capítulo O Amanhã Não Está à Venda - do Livro A Vida Não é Útil.

O “Intelectual do Ano”

O índio nascido em 1953 na região do Médio Rio Doce, em Minas Gerais, foi alfabetizado somente aos 17 anos. Em 2016 Ailton Krenak receberia o título de Professor Doutor Honoris Causa, pela Universidade Federal de Juiz de Fora (SP), onde ele também lecionava em cursos de especialização sobre temas indígenas. Em 2020 foi escolhido para receber o importante Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano.

Desde o início da pandemia, Ailton Krenak tem sido uma das mentes mais requisitadas em lives e entrevistas para descortinar uma nova forma de viver e conviver em harmonia, em sociedade e com respeito à natureza.

Seus livros “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo” e “A Vida Não é Útil” figuram entre os mais vendidos no Brasil. Com linguagem simples e direta, os livros escancaram algumas das razões que levam a humanidade a uma insatisfação e degradação permanentes.

O líder indígena ambientalista participou, na década de 1980, da fundação da União dos Povos Indígenas e da Aliança dos Povos da Floresta, bem como da Assembleia Nacional Constituinte que elaborou a Constituição Brasileira de 1988. Ali protagonizou uma cena marcante que ganhou o mundo. Em discurso, na tribuna da Câmara dos Deputados, pintou o rosto com tinta preta do jenipapo, segundo o tradicional costume indígena brasileiro, para protestar contra o que considerava um retrocesso na luta pelos direitos dos índios brasileiros.

Desde 2015 vem denunciando o crime socioambiental ocorrido em Mariana (MG), com o rompimento da barragem do Fundão, da mineradora Samarco/BHP Billiton, da Vale que impactou também o território tradicional dos índios krenak.

Ailton Krenak transmite suas ideias de forma oral, conforme a tradição indígena milenar. Acompanhe a entrevista também no nosso canal de YouTube NossoBemEstar

 

Créditos:

Denilson Baniwa, Natureza Morta (2016-2019)/reprodução/NBE

Do curta de animação Mãtãnãg, a Encantada/divulgação/NBE

Ilka Filippini/ NBE

 

Assista um resumo da entrevista com Ailton Krenak em vídeo e aproveite para inscrever-se em nosso canal e deixar a sua mensagem e curtida. 

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